Publicações arquivadas sob inspiração
Ou “Reminescências de um Ex-quase-RPGista”.
©Russ Nicholson. Imagem: Titannica
Russ Nicholson é o cara responsável pela arte interna de um livro que marcou minha pré-adolescência: A Cidadela do Caos, de Steve Jackson e Ian Livingstone. Trata-se do segundo volume da coleção de “livros-jogos” Fighting Fantasy, da Wizard Books (publicada no Brasil pela Marques Saraiva). Cada volume contém uma “aventura-solo” completa, semelhante a um RPG, mas que, como o termo indica, deve ser jogado por apenas uma pessoa. No livro, o leitor vive um aprendiz de feiticeiro em missão para libertar um povoado do jugo de um general maligno.

A mecânica do jogo é interessante: a história é dividida em trechos numerados, que não fazem sentido se lidos na ordem natural. Ao fim de cada um deles deve-se escolher um dos rumos apontados para ir em frente e seguir para o trecho de número indicado na opção desejada. Ao longo da aventura, também é preciso encarar os inimigos com que se esbarra no caminho, em lutas decididas com base em uma ficha de personagem e em lances de dados. Escolhendo as opções certas e dando sorte no mano-a-mano, chega-se ao fim do livro.

Nicholson comparece com ótimos desenhos a traço de página inteira, legendados com citações do trecho a que dizem respeito. Utiliza um hachuramento espontâneo que difere, por exemplo, da arte do John Findley (abordado no primeiro post desta série) com seus “movimentos friamente calculados”. O resultado são ilustrações impactantes, que trasmitem muito bem o tom caótico e sujo que se poderia esperar de um lugar como a cidadela do título. Em meados da década de 90, o jovem Henrique, pré-adolescente, nerd e muito interessado no tema da “fantasia medieval”, nunca vira nada igual e passava horas admirando aquelas obras.
©Russ Nicholson. Imagem: Titannica
Esse livro foi o primeiro empurrão em minha progressão de usuário recreativo de “sword and sorcery” para o RPGista mediano que fui até os 15 anos. Se antes o máximo a que eu chegava era ler Conan, assistir a Caverna do Dragão e Willow e jogar Hero Quest ou Golden Axe,depois de Cidadela do Caos logo estava comprando tudo relacionado a RPG e fantasia medieval: revistas especializadas, livros com sistemas de regras, miniaturas de chumbo e dados com quantidades bizarras de lados, além, é claro, de passar a ler livros como Senhor dos Anéis, O Hobbit, Brumas de Avalon, A Morte de Arthur, etc.

Minha faceta RPGística não duraria muito tempo. Primeiro, porque lia mais do que jogava; segundo, em minha turma eu era o único que se animava a mestrar uma partida (ou seja, sempre fui a “banca”). E além disso, ninguém de meu grupo regular (inclusive eu) se empolgava muito com interpretação ou seguir à risca as personalidades dos personagens. Nossas partidas eram simples rodadas de “matar-pilhar”, onde todo mundo fazia o que dava na veneta dentro dos cenários que eu bolava.
Não demorei a me enfastiar da mesmice e perceber que gostava mais dos temas abordados e das ilustrações dos livros do que do jogo em si. Mesmo assim, posso dizer que o RPG foi, junto com o vício em gibis de super-heróis, a motivação inicial para que eu desenvolvesse o hábito de desenhar. Curiosamente, hoje abandonei os dois hábitos…
©Russ Nicholson. Imagem: Titannica
É uma pena que um ilustrador tão habilidoso quanto Russ Nicholson tenha sumido do mapa. Não achei nem mesmo um portfolio virtual, apenas essa entrevista no site da Fighting Fantasy. Lá o cara reclama de ser pouco lembrado para novos trabalhos, talvez por seu tipo de arte não estar na moda e por ser identificado com um nicho temático muito específico. Parece que ele precisa rápido de um agente ou de um esforço básico de visibilidade: site, blog e prospecção ativa de clientes. De minha parte, fica aqui este tributo.
©Russ Nicholson. Imagem: Wizard Books
Heróis do Traço é uma série de posts onde falo de alguns artistas que admiro - seja por terem influenciado meu estilo de desenho, minha “visão artística” ou minha vida, ou simplesmente por gostar de sua arte. Não há nenhum critério de postagem, a não ser a ordem em que me aparecem na telha.
16 Junho 2009 às 04:23
Henrique
Quem gosta de concept art, design de produto ou ficção científica não pode perder essa dica: Concept Ships, “uma revista online de arte de aeronaves experimentais e espaçonaves animadas” mantido pelo mesmo povo do Fórum Concept Ships.
O blog mantém atualizações frequentes sobre o tema, sempre com enfoque em um autor. Nos posts, só desenhos, em estilos, técnicas e níveis de renderização variados — do sketch à finalização realista, do grafite ao photoshop, sem esquecer, é claro, dos marcadores do tipo Prismacolor tão amados pelos concept artists. As imagens deste post sao exemplos do tipo de coisa que se encontra por lá.
Outra característica do Concept Ships são os loops em Flash que aparecem no cabeçalho do blog e em certos posts — interessantes, mas cuja qualidade varia. Alguns são ótimos, como slideshows de vistas da mesma nave ou animações de cenas curtíssimas; a maioria, no entanto, não passa de aeronaves com um efeito falcatrua de “flutuação” (oscilando para cima e para baixo, enquanto o cenário se mantém estático).
Por último, só quando estava escrevendo este post é que descobri o outro projeto do pessoal do Concept Ships: Concept Robots, com a mesma abordagem para um tema tão legal quanto as espaçonaves. Ainda não consegui olhar a fundo, mas já deu pra notar que vale a pena visitar.
Dica descoberta em um post antigo do Drawn.
27 Maio 2009 às 05:16
Henrique

Esse cara foi um achado. Descobri via um post longínquo do Drawn, no qual ele está representado por uma enganosa capa “realista” de Tex Arcana. Mal sabia que estava prestes a me deparar com uma arte humilhante de tão perfeita, detalhista e precisa ao extremo — uma verdadeira obra-prima do traço, de um Doré ou Dürer dos quadrinhos.
Findley faz miséria neste trabalho, série de fantasia/ western/ horror/ erótica publicada na Heavy Metal entre 1981 e 1987. O site linkado disponibiliza quatro livros (o último, incompleto) que compõem uma série instigante e inspiradora.

John Findley tem também um site pessoal onde publica artes em um escopo mais amplo, com técnicas como 3D, montagens fotográficas e outros estilos de finalização além da hachura. Eu, obviamente, prefiro o estilo mostrado neste artigo.
Não perca tempo: amarre o babador ao pescoço e vá dar uma olhada.
Links:
www.texarcana.com
www.sweaz.com/index.html
Imagens:
© John Findley, www.texarcana.com
Este post é o esboço de uma série, onde pretendo falar brevemente de alguns artistas que admiro - seja por terem influenciado meu traço, minha “visão artística” ou minha vida, ou simplesmente por gostar de sua arte. Não planejei nenhum critério de postagem e comecei pelo Findley simplesmente porque “deu na telha”.
05 Maio 2009 às 03:49
Henrique
Aqui no Rio há uma feirinha itinerante de livros usados com a qual eu vivo esbarrando. São várias tendas brancas, cada uma mantida por um sebo, que de tempos em tempos aportam em alguma praça da cidade. Já topei com ela na Cinelândia, na Central e várias vezes no Largo do Machado. Os livros costumam estar em muito bom estado e dá para garimpar algumas preciosidades, sempre a um preço em conta. Não consegui encontrar nada sobre o assunto na internet, mas quem se deparar com tal caravana não deve perder a chance de dar uma conferida.
Escrevi esse “nariz-de-cera” enorme porque quero falar de uma de minhas últimas aquisições. No final do ano passado, passeava com meu filho e esposa pelo Catete e lá estava a feira no Largo do Machado. Como bom nerd, fui imediatamente atraído pelo cheiro dos livros. Logo na primeira barraca, um facho de luz divina e o tilintar de sininhos angelicais pairavam sobre um exemplar de Isaac, O Pirata (Conrad, 2005), do francês Christophe Blain, a R$10!
Nunca tinha ouvido falar do Blain até há alguns meses, quando o Lacerda comentou aqui que um certo desenho meu lembrava a arte do sujeito. Dei uma olhada na internet e gostei muito do que vi, mas, devido a um desses momentos a que o vulgo habituou-se chamar de pindaíba generalizada, o livro teve que entrar na fila do INPS de futuras compras. Nesse meio-tempo, eis que, num golpe de sorte, encontro o Isaac à venda por meia dúzia de cobres na barraca mantida pelo Beta de Aquarius, sebo do Catete, na feirinha nômade.
Primeiro quadro do livro
Estou embasbacado até hoje. A única conclusão a que cheguei, depois de ler o livro duas vezes em uma semana, é a de que Blain é um gênio. O arte do cara segue um estilo aparentemente caótico, mas onde tudo se encaixa para formar um conjunto harmônico e orgânico. Transita entre o detalhista e o sintético conforme a história ou o personagem exigem, obtendo um resultado altamente expressivo. Na mesma página, seu traço pode passar da hachura com luz e sombra a linhas quase simplórias, sempre para o bem do “drama”.
Isaac (topo, esq) e outros personagens. A versão brasileira é em P&B. Repare na diferença de estilo dos personagens. Imagens retiradas de um site sobre Blain que aparentemente foi desativado
Os personagens de Isaac, o Pirata também não deixam a desejar. Suas personalidades são palpáveis, suas atitudes e gestos, coerentes, e mesmo os coadjuvantes mais “cocô-do-cavalo-do-amigo-do-bandido” são interessantes. Até a aparência de cada um deles é única, estranhamente adequada ao caráter que apresentam.
Cena do livro.
Blain domina também o storytelling. Enquadramento, timing, montagem, elipses, geografia da cena. Ótima sua atenção para detalhes como a degradação da aparência dos personagens ao longo da história e a “descrição” dos ambientes da nau, que tornam a jornada do personagem principal uma experiência palpável e verossímil.
O livro conta a história de Isaac, pintor francês com sede de aventura, que vive no aperto com a noiva e sonha em virar um artista reconhecido. Certo dia recebe a oportunidade que esperava, ao ser convidado por um desconhecido para documentar a viagem de um navio a um destino secreto. Deixando a noiva em terra, Isaac embarca; mas logo descobre que a situação é mais do que tinha em mente, ao ver-se envolvido em uma longa jornada na companhia de piratas…
Enquanto lia Isaac, o parceiro Luciano Feijão, verdadeira enciclopédia artística, me disse que o livro não contava a história completa. De fato, a edição da Conrad engloba apenas os três primeiros volumes da série e não há previsão de publicação dos dois restantes. Além disso, Feijão também contou que o livro original era colorido, ao contrário da edição nacional. Nada disso, no entanto, depõe contra o livro. A história é interrompida em um bom ponto e a arte em preto e branco é tão ou mais interessante do que a colorida, a julgar pelas imagens encontradas na internet — e para este viciado em traço, o foco nas hachuras compensou perfeitamente a perda da “camada extra” de significado trazida pelas cores.
Obviamente, recomendo o livro!
05 Março 2009 às 03:13
Henrique