Templário Mais um coroa

Yar-har-har!!

05 Março 2009 às 03:13 Henrique  | Enviar por e-mail Hits para esta publicação: 642

Aqui no Rio há uma feirinha itinerante de livros usados com a qual eu vivo esbarrando. São várias tendas brancas, cada uma mantida por um sebo, que de tempos em tempos aportam em alguma praça da cidade. Já topei com ela na Cinelândia, na Central e várias vezes no Largo do Machado. Os livros costumam estar em muito bom estado e dá para garimpar algumas preciosidades, sempre a um preço em conta. Não consegui encontrar nada sobre o assunto na internet, mas quem se deparar com tal caravana não deve perder a chance de dar uma conferida.

Escrevi esse “nariz-de-cera” enorme porque quero falar de uma de minhas últimas aquisições. No final do ano passado, passeava com meu filho e esposa pelo Catete e lá estava a feira no Largo do Machado. Como bom nerd, fui imediatamente atraído pelo cheiro dos livros. Logo na primeira barraca, um facho de luz divina e o tilintar de sininhos angelicais pairavam sobre um exemplar de Isaac, O Pirata (Conrad, 2005), do francês Christophe Blain, a R$10!

Conrad IsaacoPirata - Conrad:  Isaac, o Pirata

Nunca tinha ouvido falar do Blain até há alguns meses, quando o Lacerda comentou aqui que um certo desenho meu lembrava a arte do sujeito. Dei uma olhada na internet e gostei muito do que vi, mas, devido a um desses momentos a que o vulgo habituou-se chamar de pindaíba generalizada, o livro teve que entrar na fila do INPS de futuras compras. Nesse meio-tempo, eis que, num golpe de sorte, encontro o Isaac à venda por meia dúzia de cobres na barraca mantida pelo Beta de Aquarius, sebo do Catete, na feirinha nômade.

isaac1 - primeiro quadro de Isaac, o Pirata
Primeiro quadro do livro

Estou embasbacado até hoje. A única conclusão a que cheguei, depois de ler o livro duas vezes em uma semana, é a de que Blain é um gênio. O arte do cara segue um estilo aparentemente caótico, mas onde tudo se encaixa para formar um conjunto harmônico e orgânico. Transita entre o detalhista e o sintético conforme a história ou o personagem exigem, obtendo um resultado altamente expressivo. Na mesma página, seu traço pode passar da hachura com luz e sombra a linhas quase simplórias, sempre para o bem do “drama”.

isaac blain personagens - Alguns personagens de Isaac, o Pirata
Isaac (topo, esq) e outros personagens. A versão brasileira é em P&B. Repare na diferença de estilo dos personagens. Imagens retiradas de um site sobre Blain que aparentemente foi desativado

Os personagens de Isaac, o Pirata também não deixam a desejar. Suas personalidades são palpáveis, suas atitudes e gestos, coerentes, e mesmo os coadjuvantes mais “cocô-do-cavalo-do-amigo-do-bandido” são interessantes. Até a aparência de cada um deles é única, estranhamente adequada ao caráter que apresentam.

isaac2 - isaac2
Cena do livro.

Blain domina também o storytelling. Enquadramento, timing, montagem, elipses, geografia da cena. Ótima sua atenção para detalhes como a degradação da aparência dos personagens ao longo da história e a “descrição” dos ambientes da nau, que tornam a jornada do personagem principal uma experiência palpável e verossímil.

O livro conta a história de Isaac, pintor francês com sede de aventura, que vive no aperto com a noiva e sonha em virar um artista reconhecido. Certo dia recebe a oportunidade que esperava, ao ser convidado por um desconhecido para documentar a viagem de um navio a um destino secreto. Deixando a noiva em terra, Isaac embarca; mas logo descobre que a situação é mais do que tinha em mente, ao ver-se envolvido em uma longa jornada na companhia de piratas…

Enquanto lia Isaac, o parceiro Luciano Feijão, verdadeira enciclopédia artística, me disse que o livro não contava a história completa. De fato, a edição da Conrad engloba apenas os três primeiros volumes da série e não há previsão de publicação dos dois restantes. Além disso, Feijão também contou que o livro original era colorido, ao contrário da edição nacional. Nada disso, no entanto, depõe contra o livro. A história é interrompida em um bom ponto e a arte em preto e branco é tão ou mais interessante do que a colorida, a julgar pelas imagens encontradas na internet — e para este viciado em traço, o foco nas hachuras compensou perfeitamente a perda da “camada extra” de significado trazida pelas cores.

Obviamente, recomendo o livro!

Publicação arquivada em: dicas, livros, inspiração

Enviar por e-mail | Hits para esta publicação: 643

2 Comentários Faça seu próprio

  • 1. Um Blog Plácido » &hellip  |  5 de Março de 2009 às 04:59

    […] Yar-har-har!! […]

  • 2. tiago  |  6 de Março de 2009 às 02:02

    um achado né.Isaac é meu livro de cabeceira.

Deixe um Comentário

Requerido

Requerido,escondido

Linkar esta publicação  |  Assine os comentários via o RSS


Minhas Publicações Recentes

Publicações por Mês

Estatísticas

Meta